Música Grega

Boletim do CPA, Campinas, nº 4, jul./dez. 1997 241O ETHOS NA MÚSICA GREGANajat Nasser*             Na antiga Grécia a música era uma atividade vinculada a todas as manifestações sociais, culturais, e religiosas. Dentre todas as artes, era a mais relevante. Para os gregos a música era tão importante e universal como o próprio idioma. Como forma de expressão, tinha o poder de influenciar e modificar a natureza moral do homem e do estado. Seu grau de importância pode ser comparado aos princípios da ética e da política., como declara Damon: "Não se pode alterar os modos musicais sem alterar ao mesmo tempo as leis fundamentais do Estado"1.            A música constitui um dos principais interesses na organização política do estado grego. Como em outras instâncias, suas regras deveriam ser observadas pelo estado, e por essa razão não caberia deixá-las a critério dos artistas. Por isso, a formação musical era um requisito básico na  educação de qualquer cidadão livre, pois caberia a ela direcionar a conduta moral, social e política de cada indivíduo, para cumprir adequadamente seu papel junto ao estado. A música deveria exaltar as boas qualidades no indivíduo e ao mesmo tempo suscitar o significado de ordem, dignidade, capacidade de decisões rápidas, além do equilíbrio, simplicidade e temperança.            As questões relativas aos princípios éticos e estéticos da música são tratadas por Platão, principalmente na República e nas Leis. Na concepção de Platão, a música expressa as relações intrínsecas existentes entre as progressões musicais e os movimentos da alma. A função da música, acima de tudo, era buscar o equilíbrio da alma, assim como produzir um conjunto harmônico de conhecimentos. Para os gregos, os conceitos de concordância e proporção constituíam a base de todas as manifestações, éticas, estéticas e intelectuais, e a música por si só agregava todos esses princípios.            As formas de expressão rítmicas, melódicas e poéticas, eram determinadas por normas que pudessem conduzir o indivíduo à essência desses princípios.            A educação musical poderia estruturar o indivíduo e o estado, e sua prática representava a condição suficiente para determinar as normas da conduta moral. Neste contexto, a palavra nómos (o/j) era utilizada pelos gregos no seu sentido duplo: poderia designar melodias tradicionais, e leismorais, sociais e políticas do estado.Os gregos acreditavam que existia uma correlação entre sons musicais e processos naturais capazes de influenciar a conduta humana. O elo que transforma essa força em música era determinada por pequenos grupos melódicos que serviam como unidades estruturais para compor melodias mais extensas. Esses grupos eram denominados pelos gregos de nómos, plural  nómoi, e representavam toda a força dinâmica da música. Esse princípio tem sua origem, e grande significação, na música das culturas orientais, mas é somente na Grécia que atinge seu desenvolvimento máximo com  a doutrina do ethos. Na perspectiva musical, a doutrina do ethos expressa a ordenação, diferenciação e o equilíbrio dos componentes rítmicos, melódicos e poéticos. A sincronicidade de todos esses elementos constituía um fator determinante na influência da música sobre o caráter humano. Essa concepção revela o porque a música era considerada como um atributo fundamental no sistema político e educacional do estado. De acordo com a doutrina do ethos, a música tem o poder de agir e modificar categoricamente os estados de espírito nos indivíduos. Pode induzir à ação; fortalecer ou de modo contrário enfraquecer o equilíbrio mental; ou ainda gerar um estado de inconsciência, onde a força de vontade fica totalmente ausente nos indivíduos.             De acordo com os filósofos, os efeitos da música sobre o comportamento humano podem ocorrer de quatro maneiras distintas: primeiro, pode induzir à ação, ethos praktikón; segundo, pode manifestar a força, o ânimo, ethikón; terceiro, pode provocar a fraqueza no equilíbrio moral, ethos malakón,ou threnôdes, que segundo Platão resulta dos cantos trenódicos baseados nas harmonias plangentes como lídia mista e a lídia tensa e quarto, pode induzir temporariamente, à ausência das faculdades volitivas produzindo um estado de inconsciência, ethos enthousiastikón. Esse ethos está associado aos ritos dionisíacos propício para induzir ao êxtase e o delírio             Na República, Platão considera a música e a ginástica como os elementos essenciais na educação. A ginástica não vem antes da música, mas deve precedê-la e a música é quem deve predominar, porque é o aperfeiçoamento da alma que enobrece e aperfeiçoa o corpo."Também aqui é necessário que comece desde a infância, que seja feita com grande cuidado e se prolongue durante a vida inteira (...). Não creio que o corpo bem constituído possa melhorar a alma com suas excelências corporais, mas, pelo contrário, é a alma boa que, mercê de suas virtudes, aperfeiçoa o corpo na medida em que isso for possível (...) a alma convenientemente educada se encarregará do corpo".             A prática isolada da ginástica nutre nos indivíduos a brutalidade e dureza,e a da música induz à mansidão e letargia do espírito. A verdadeira harmonia da alma, na mais justa proporção, resulta entre a combinação equilibrada da música e da ginástica. Para manter a tradição, Platão sugereque a boa música seja uma arte cultivada e aperfeiçoada por todos os cidadãos.             A educação musical era uma prerrogativa da cultura grega. Na Arcádia, o estado regulamentava que todos os indivíduos, até a idade de trinta anos, deveriam ser submetidos à educação musical. E Atenas, Esparta e Tebas, todos os cidadãos livres deveriam aprender a tocar aulos e participar das atividades corais. A prática do canto coral era prescrita em ordem cronológica, onde os eventos históricos e os grandes feitos eram contados através do canto. Iniciava-se pelos hinos mais antigos de louvor e glorificação aos deuses e heróis, e concluía-se com as novas tendências musicais praticadas na época. Na República, o conjunto de músicas passa por uma seleção, e permanecem aquelas que possam melhor contribuir para a formação da conduta moral do cidadão.            Na cultura grega, os dois instrumentos mais utilizados e apreciados eram a cítara e o aulos. A cítara, um instrumento de cordas, possuía um  som suave, enquanto que o aulos, um instrumento de sopro com palheta, possuía um som estridente e penetrante. Segundo Plutarco, Apolo não era somente o inventor da música, mas também o inventor das músicas para cítara e aulos. Os gregos acreditavam que esses instrumentos, em função de suas características timbrísticas, fossem dotados de qualidades éticas.               Da mesma maneira, cada um dos modos possuía seu próprio ethos; alguns exaltavam as qualidades nobres, enquanto que outros induziam à violência e degradação moral. Supõe-se, que essas qualidades podem estar relacionadas à sua procedência uma vez que a eles era atribuído o mesmo nome das tribos nacionais. É possível que as diferentes qualidades éticas refletissem a índole e o caráter de cada uma.             A doutrina do ethos, na Grécia, foi desenvolvida a partir de pequenos grupos ou fórmulas melódicas denominadas de nómos. Essas fórmulas existem, tradicionalmente, em quase todas as músicas orientais, mas com diferentes denominações. Na música grega, os núcleos nômicos eram utilizados como unidades básicas nas formações melódicas mais extensas. Na antigüidade, essas fórmulas constituíam o princípio dinâmico de toda música.          Os nomoi eram naturalmente dotados de uma natureza expressiva, pelo fato de ocorrerem em uma determinada região da voz. No início, eram essencialmente vocais, e mais tarde passaram a ser utilizados nas composições instrumentais, como a cítara, lira e aulos. Musicalmente, essas fórmulas melódicas geravam padrões dentro das melodias, e é por isso que a palavra nomos significa lei. Neste contexto, as fórmulas nômicas constituíam as melodias e ao mesmo tempo revelavam seu valor expressivo. A elaboração de todos esses conceitos veio somente mais tarde com a doutrina do ethos, onde a força expressiva das melodias eram implicitamente veiculadas.            De acordo com a tradição, as composições nômicas eram caracterizadas, pelo grau de tensão da voz ou do instrumento que as realizava. Cada uma das fórmulas possuía uma altura característica, e a altura ressaltava a qualidade do timbre. Neste contexto altura e timbre eram intrinsecamente associados. Essa relação é claramente descrita por Plutarco: "desde os tempos mais remotos não se permitia que os músicos, assim como hoje, modulassem de uma harmonia ou de um ritmo para outro, pois cada nomo tinha sua altura apropriada, e esta deveria ser observada. Esta é na verdade a razão do nomo: eles a chamam de nomoi porque era proibido violar a altura própria que prevalecia em cada".A necessidade de evitar qualquer tipo e mudança nos nomoi está estreitamente vinculada às suas qualidades expressivas, ao seu ethos. Nas composições musicais as fórmulas nômicas eram dotadas de diferentes funções: existiam as iniciais e as conclusivas; as de caráter conjuntivo e disjuntivo. Cabia ao compositor ordená-las dentro de uma determinada seqüência, por diferentes arranjos e combinações. O aspecto criativo resultava na ornamentação e modulação das melodias, o que só foi possível posteriormente.            Como afirma Plutarco, não se permitiam modulações rítmicas ou melódicas, para que as características originais de cada nomos fossem preservadas. Para os gregos, as melodias nômicas, com uma qualidade própria, eram imediatamente reconhecíveis quando o nomos permeava a melodia. Os nomoi foram inicialmente identificados pela sua procedência nacional, e em seguida pela sua função, ritualística e religiosa. Mais tarde, quando os tetracordes foram estendidos em formações escalísticas e os modos sistematizados, os nomoi passaram a constituir então um estilo de composição, ou seja, as composições nômicas.            Como realidade sonora, os nomoi eram realizados no âmbito intervalar de uma quarta justa (4J), tetracorde básico na música grega.             Na    sua origem o nomo vocal era caracterizado por intervalos microtônicos (quartos de tom). Na música instrumental, o instrumento mais utilizado pelos Frígios era o aulos; capaz de produzir, além das consonâncias fundamentais de quarta, quinta e oitava justas, sons intermediários com uma variedade de entonações. Já os instrumentos utilizados pelos Dóricos eram preferencialmente a cítara e a lira. Na realidade, a cada estrutura tetracordal correspondia um tipo de afinação nos instrumentos. A cítara, por exemplo, possuía uma afinação ou tensão (tonos) peculiar para o nomos dórico, outra para o nomos frígio, lídio etc. Pode-se afirmar que cada modo era caracterizado por um grau de tensão (tonos), único e indissociável. Essas afinações deveriam ser preservadas para que o ethos de cada uma fosse imediatamente reconhecível.           Pode-se perguntar: o que caracterizava o ethos? Quais as relações entre o ethos e as formações modais? Não existe uma resposta concreta, uma vez que o ethos é imaterial, mas existem evidências indicando o que supostamente poderia caracterizar essas relações. A primeira é atribuída à tensão da voz, seu tonos, e a afinação do instrumento que executava as melodias. A segunda é essencialmente empírica, resultava do poder expressivo propriamente dito, de sua tradição. Além das formações tetracordais, a doutrina do ethos está ainda relacionada às qualidades timbrísticas dos instrumentos. O ethos atribuído à cítara é diferente do ethos produzido pelo aulos. Mas esta noção está estreitamente vinculada aos tipos de composições, que tradicionalmente eram associadas aos instrumentos.            A cítara era o meio ideal para expressar principalmente o ethos dos hinos litúrgicos, dedicados à Apolo. A música instrumental da cítara, veicula um caráter ético viril, grave e majestoso, que de acordo com a tradição grega, foi o instrumento escolhido por Platão para permanecer na República, tal como se diz em 399: "Só restam, pois, a lira e a cítara como instrumentos úteis na cidade (...) não há nada de extraordinário, em preferir Apolo e os instrumentos apolíneos". Associada ao ethos da cítara está a harmonia dórica, a verdadeiramente helênica. A harmonia dórica é austera, firme, capaz de manter o espírito firme diante de qualquer desafio, como comenta Platão:  "(...)uma que seja capaz de imitar devidamente a voz e os acentos de um herói na hora do perigo e da austera resolução, ou quando sofre um revés, um ferimento, a morte ou qualquer infortúnio semelhante, e em tais crises enfrenta os golpes da sorte a pé firme e com ânimo indomável".Já o valor expressivo da harmonia frígia poderia preservar o caráter moral e também ser utilizada no canto de louvor aos deuses como comenta Plutarco: Olympus empregava o modo frígio em suas melodias para honrar a Mãe dos Deuses e também em outros tipos de composição.              Para Platão a harmonia frígia representava o equilíbrio, a temperança. Esta harmonia é a mais adequada para as composições na cítara quando utilizada para acompanhar a poesia épica e a lírica, principalmente lírica apolínea."E outra para usar no tempo de paz, quando, em plena liberdade de agir e sem sentir pressão da necessidade, procura convencer a outrem de alguma coisa com preces se é um deus ou com advertência e admoestações se se trata de um homem; ou quando pelo contrário, exprime sua disposição de ceder às súplicas, lições de persuasões de um outro, e tendo logrado pela sua conduta prudente, aquilo que tinha em mira, não se envaidece, mas em todos os momentos age com moderação e se mostra satisfeito com sua sorte".            O aulos é o instrumento associado aos cultos dionisíacos, utilizado nas composições ditirambicas para acompanhar os coros dramáticos e as elegias. O ditirambo representava, para os gregos, uma das mais importantes realizações na poesia coral. A harmonia própria das composições para o aulos é a frígia, e seu caráter é entusiasta e agitado.           A harmonia lídia, como Platão descreve na República, era plangente, favorecia as situações trágicas, e era a adequada para expressar os trenós e lamentos, que segundo Plutarco, foi rejeitada por Platão por possuir uma afinação aguda. Foi inicialmente utilizada para compor dirges.              Seu ethos era triste, e poderia induzir a embriaguez, a moleza e a preguiça. Portanto, era totalmente inadequada para ser utilizada no estado grego.           "A lídia e a lídia tensa (...) devem ser suprimidas (...) porque não são apropriadas para mulheres de mediana condição, quanto mais para homens (...) Tampouco há coisas que seja menos apropriada para os guardiões que a embriaguez, a moleza, e a preguiça (...) e teriam elas alguma utilidade para um público de guerreiros?"            Para os gregos, a harmonia mixolídia é de caráter emocional própria para tragédias. Foi Sappho, quem usou essa harmonia em suas composições pela primeira vez, e os escritores de tragédias passaram a utilizá-lo em seguida. O ethos atribuído a essa harmonia era de caráter patético e doloroso, apropriado para as composições trenódicas corais, isto porque, ela resulta pela combinação do tetracorde dórico que expressa grandiosidade e dignidade, com o tetracorde hipolídio que é de caráter emocional.           A formação de cada uma das harmonias dependia fundamentalmente das relações tetracordais, assim como de suas respectivas relações intervalares.

São essas relações com suas funções específicas (dynamis) que caracterizavam as estruturas. Como cada um dos tetracordes tinha uma procedência nacional, era natural que as relações fossem ajustadas para que pudessem constituir uma unidade. Assim, a construção das harmonias derivadas (hipodórica, hipolídia, hipofrígia)18, era concebida por dois tetracordes, um original e o outro derivado.           

           No entanto, para que a unidade fosse estabelecida a união dos dois tetracordes era feita por conjunção, isto é, ocorria uma elisão entre a nota final do tetracorde inicial e a primeira nota do tetracorde subseqüente. Para que a a relação da oitava fosse completa a primeira nota do tetracorde anterior era repetida no final do segundo tetracorde.

            O significado da palavra harmonia surge precisamente em função desse ajuste das partes. As harmonias mais antigas, como por exemplo, a Dórica, Frígia, preservavam o seu ethos original, enquanto que o das derivadas foi modificado. A razão disso é que o significado ético encontrava-se estreitamente vinculado ao grau de tensão, a sua própria afinação. Como as harmonias de prefixo hipo localizavam-se em uma região mais aguda, é natural que seu ethos, em relação às originais fosse modificado, pelo fato de seu tonos apresentar maior tensão.

 Observação final: a doutrina do ethos compreende ainda os ritmos que, por uma questão de tempo, não serão abordadas nessa exposição, ficando talvez para uma próxima oportunidade.      

musica grega

sexta 25 janeiro 2008 19:44 , em Artigos diversos



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